
Sempre foi considerada uma tolinha. Isso lhe era muito conveniente. Vivia assim, medianamente. Trabalhava, voltava pra casa, poucos amigos, nem assim tão íntimos. Ninguém lhe notava de verdade. Viam-na, mas não a enxergavam.
Ouvia música e gostava de ler e assim passava seu tempo livre. Sonhando com as estórias que lia e tornava a ler.
Faltou ao trabalho por uma semana: só então descobriram não ter a quem perguntar por ela. O tempo foi passando. Ninguém sabia de nada. Lá um dia, uns parentes (até próximos, mas que não tinham o hábito do contato regular, nem por telefone), ligaram para convidá-la pros festejos de uma data importante do clã. Ela não atendeu. No dia seguinte também. E assim foi até que ligaram uns para os outros e descobriram que ela havia desaparecido. Decidiram e foram até a casa ver o que houve. Os vizinhos disseram não vê-la há semanas. Pensaram estar viajando a moça simpática, educada mas distante que não passava dos cumprimentos habituais e não incomodava ninguém.
Resolveram então arrombar a porta. Já estaria morta há dias? Sofrera um ataque cardíaco? Um assalto? Um sequestro?
Quando abriram a casa tudo estava como sempre: arrumado e limpo. Mas ela não estava. Nenhum sinal de luta, não deram por falta de nada. Roupas no armário, cd´s mais ou menos arrumados. A estante mais ou menos desalinhada. Alimentos em seus lugares. A cozinha organizada como se ela tivesse saído prá voltar. Mistério. O que fazer? A quem recorrer?
Como já havia mais de um mes que ela desaparecera, começaram a trocar idéias e descobriram que ninguém sabia mais nada a seu respeito a não ser que morava alí e trabalhava acolá.
Aconteceu é que um dia ela se encheu de tudo. Planejou tudinho, que não era tola, sacou suas economias, levou consigo apenas seu talismã, algumas roupas íntimas, seu livro de cabeceira ( O LIVRO dISSO - Georg Groddeck) , dois ou tres cd´s e seu laptop. Enfim, coube tudo numa sacola.
Mudou-se para outra cidade longe dalí e foi começar tudo de novo. No caminho achou que era tolice avisar a alguém.
E ria, enquanto pensava se na próxima vez repetiria tudo ou deixaria de ser tolinha...
Acrílica sobre tela-2008
Foto I. Moniz Pacheco