terça-feira, 29 de junho de 2010

DE CULTURA ETC.

Sempre tive implicância com algumas palavras, sobretudo com o peso dado a elas, um peso que tem a ver quase com o sagrado. A principal delas é cultura, que envolve arte, e literatura, entre muitas outras coisas.
É perigoso falar desses assuntos, mas esse sentimento existe tão forte dentro de mim, que evitá-los seria quase hipocrisia.
Vamos à primeira: cultura.
O que é uma pessoa culta? É a que leu todos os livros, esteve em todos os museus, sabe falar, com palavras bonitas - e se forem difíceis, melhor ainda - sobre os movimentos culturais do passado, do presente e até os que ainda vêm por aí.
Sabe tudo sobre história em geral, a Grécia antiga, os romanos, etc.; só que para falar sobre essas coisas e passar uma bela impressão de cultura, é preciso ter também uma memória privilegiada. Não adianta um vasto conhecimento sobre todos os assuntos que fazem parte do que se chama cultura, se não tiver memória.
Por ter alguma experiência de vida, também implico muito com os "espaços" culturais, talvez por ter visto tanta gente que só tem uma ambição na vida: dirigir um deles.
Eles pulam de um para outro, e passam a vida às custas da cultura, seja lá isso o que for; são os gigolôs da cultura.
Aliás, quem decide o que é e o que não é cultura?
E quem decidiu que esses tem o poder de decretar o que é e o que não é?
Há alguma coisa mais vaga do que um centro cultural?
E quantos devem existir no Rio e em São Paulo?
Centenas, com toda certeza.
Vamos agora à palavra arte; artes plásticas, mais precisamente.
Existem, nos dias de hoje, artistas que vendem suas criações por milhares de dólares, e que fico feliz por eles.
Já outros passam a vida sem conseguir vender um único quadro - olha o exemplo de Van Gogh - e um belo dia passam a ser considerados os melhores da história do mundo.
Eu, que confesso sem nenhuma vergonha não ter um bom olho para a pintura, às vezes gosto do quadro de um pintor famoso, às vezes não; às vezes gosto do quadro de um desconhecido, às vezes não.
Mas me recuso a ter que gostar de artistas consagrados porque alguns alguéns decretaram que eles são talentosíssimos.
Odeio instalações, e me dou ao direito - que todos temos, aliás - de gostar do que eu gosto, sem ir pela cabeça dos críticos.
Agora, a literatura.
Escrever, bem ou mal, não dá a ninguém o direito de se achar parte do sagrado mundo literário, e eu gostaria de saber porque razão os críticos da palavra têm o poder de dizer que uma determinada obra é um primor de literatura, ou não.
Qual o critério de poder julgar o trabalho dos outros e dizer, do alto de sua sabedoria, o que é bom e o que não é?
Cansei de tentar ler livros altamente considerados como obras primas, e largar nas primeiras páginas, tal o tédio que sentí. Aliás, quem quiser se passar por culto, é só decorar algumas frases de autores famosos e de vez em quando dizê-las, assim como quem não quer nada, no meio de uma conversa.
Quem decreta que A é um bom pintor, que B é cultíssimo, que o livro C é bom ou ruim? Quem consagra ou destrói quem ousa penetrar nesse misterioso mundo da cultura?
Quem tem o direito de falar sobre a qualidade do trabalho de um pintor?
Penso que somos, todos nós, únicos, com nossos gostos e preferências, e que devemos olhar para tudo que é feito em nome da cultura com nosso próprios olhos, e não pelos daqueles que são considerados - não sei por quem - os únicos que sabem.
Danusa Leão
Bom texto para refletir e discutir.
Foto de um monte de restos de argila, fotografado por mim, e que não faria feio em relação a algumas instalações que tenho visto por aí.

5 comentários:

Bípede Falante disse...

Ivonete, um texto bastante provocativo e um final de post engraçadíssimo com a foto tirada por você e que passaria muito bem por alguma obra de arte :)
Adorei!

Lucia Alfaya disse...

Eis a discussão que temos travado e que servirá de pano de fundo para a nossa próxima exposição: afinal de contas, o que é arte? Quem pode dizer o que é ou não arte? Quuais os critérios para classificar se algo é ou não uma obra de arte? Sei que o debate é antigo e até hoje há muita controvérsia sobre o assunto. Nós, pobres mortais, podemos apenas pensar e dizer o que pensamos. Quem tiver ouvidos para ouvir, que preste atenção! rsrsrs

Chorik disse...

Eu pensei que você tivesse fotografado um monte de estrume! rs

Bernardo Guimarães disse...

nem gosto do que esta senhora escreve, apesar de ter de concordar com algumas coisas desse texto. mas o que gostei mesmo foi o final: tão comadre!!!

Terráqueo disse...

Esse texto é ótimo, e a Danusa liquida quando menciona que tem o direito de gostar do que gosta. O monte de barro de sua foto é bem mais interessante do que o monte de b. que tenho visto em galerias e museus. Abraço,

Terráqueo