sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Gente,
Eis um texto excelente para uma discussão...
Mediocridade realista
Ruy Espinheira Filho
Jornal A Tarde - 20.11.2008
Meu último artigo aqui publicado - O essencial romantismo -, sobre a necessidade do toque romântico nas artes, particularmente na poesia, valeu-me catadupas de e-mails de apoio. O que significa que as pessoas já não estão aguentando mais a onda de realismo que vem ocupando todos os espaços nos últimos tempos. Em nome do políticamente correto, por exemplo, já tem muita gente abusando. E o que acontece é isto: a arte passa a ser avaliada por seu conteúdo ético, moral, político. Como durante o famigerado realismo socialista - que não era arte, era propaganda, como bem sabia o camarada Stálin...
Dirão os defensores desse realismo que a arte reflete a sociedade. Trata-se de visão paupérrima da arte - que, na verdade, não reflete nada: cria. Arte não é reflexo - é criação. "Justifica-se" a pobreza de uma música, um cinema, uma literatura argumentando que são assim porque refletem a sociedade. Ora, se refletem... não criam. Se não criam, arte não são. Porque, repito, arte é criação - tem vida própria.
Na literatura brasileira de hoje, o realismo é avassalador. O sujeito não é considerado escritor porque sabe escrever literatura - mas porque seus temas são "atuais". Ou seja : um livro não é bom por causa de suas virtudes literárias - mas por manipular certos personagens e situações. Monteiro Lobato escreveu Negrinha, um conto que enfoca as agressões e humilhações sofridas por uma menina negra numa casa de brancos. É um belo conto, uma obra de arte - mas não pelo seu tema. Certo que ele merece também louvoures pela denúncia que encerra - mas não é por esta razão que é uma obra de arte. É uma obra de arte porque realizado com talento literário - do contrário seria apenas um manifesto contra o racismo e a estupidez humana de um modo geral.
"De boas intenções não nascem necessariamente bons versos", escreveu Carlos Drummond de Andrade. O problema hoje é que as pessoas estão achando que boa literatura é aquela que trata de um assunto considerado politicamente - ou sociologicamente, ou antropologicamente - correto. Se a garotada já vem de uma escola sem leitura, quando muito conseguindo decifrar alguma linguagem referencial, quase nunca posta em contato com linguagem metafórica, mais desorientada ainda vai ficar ao ser atropelada pela tal boa intencionalidade. Assim, eles julgarão boa a qualidade de um texto porque, por exemplo, a história se passa no Pelourinho; ou combate a homofobia; ou denuncia a violência urbana, etc. Quanto à arte literária - do que é mesmo que esse cara está falando?! Pois é, até na universidade esta triste pergunta vibra no ar...
Vinte anos de ditadura e o desmonte da escola pública brasileira. E asssim, enquanto não tivermos de novo uma educação digna, continuaremos presos a essa mediocridade politicamente correta que vem assolando o País.

Um comentário:

maria guimarães sampaio disse...

Engraçado, comadre, coloquei hoje no meu blogão um texto de Aninha Franco sobre cultura na Bahia. É bacana reproduzir bons textos.