terça-feira, 6 de outubro de 2009

FORA DOS TRILHOS

Está difícil o metrô de Salvador entrar nos trilhos. Com entrega para 31 de outubro próximo, após várias paradas, o primeiro trecho (Lapa-Acesso Norte) estacionou outra vez, à espera de recursos. Já consumiu em dez anos cerca de R$ 1 bilhão, com sobrepreço de R$ 110 milhões detectado pelo Tribunal de Contas da União (TCU). O segundo trecho (Cabula-Pirajá) sequer foi definido. Está mais para inglês - melhor, a FIFA - ver.
Da obra depende Salvador como uma das subsedes da Copa de 2014, pela proximidade da Estação da Lapa com a futura Fonte Nova ressurgida dos escombros da velha Fonte Nova. O projeto da FIFA considera a mobilidade urbana uma das prioridades máximas, mas a passo moroso, travado por maracutaias constantes, o metrô poderá deitar água na fervura do empenho baiano em sediar jogos da Copa.
Caso típico de "deficiência gerencial", conforme o diretor do TCU na Bahia. O metrô de Salvador vem de um conluio de erros que ameaça fazer do empreendimento, já de sí considerado monstrengo arquitetônico, um sinuoso dorso ósseo a enfear a paisagem urbana, a obliterar o atraente semblante da capital e a deprimir o orgulho de sua população.
Seria um desafogo no enredado trânsito de cada dia. Desafogo de braço curto, é verdade, em vista da limitada extensão do metrô, mas, enfim, calcula-se que ele escoará 200 mil passageiros/dia. Nem este pequeno alívio parece garantido: o TCU exige da prefeitura, dentro de suas atribuições, a justificação do sobrepreço até dezembro, prazo julgado exíguo pela parte intimada, que requer prorrogação de 180 dias.
É triste. Tudo nesta obra flui para o largo estuário do planejamento inadequado ou precário, do superfaturamento, da falta de licitações, de material de qualidade inferior. O metrô de Fortaleza será inaugurado em novembro. O de Recife, de 39,5 km, já funciona com 28 estações em dois trechos. O de Salvador, com 12 km, foi encurtado para 6 km e empacou. O Estado da Bahia, que os comprou, paga aluguel de R$ 80 mil mensais pelos trens já recebidos.
Editorial Jornal A Tarde 02.10.2009.
Não consigo entender, como nós, com tantas e tão caras instâncias de fiscalização, com trocentos setores pendurados nos diversos organogramas municipais, estaduais, federais, tenhamos que esperar longos 10 anos para detectar algo errado nessa obra do metrô. Se ainda fôsse de fato uma obra arquitetônicamente bem desenhada e executada, nem assim, se justificaria esse prazo.
Mas, de fato, nos resta o seguinte: uma obra horrorrosa, um monstro inacabado serpenteando acima das nossas cabeças, pendurados em terríveis colunas de cimento, de escassos 6 km inacabados por R$ 1 bilhão. Como consôlo, fica-nos o orgulho de, quando pronto (sabe Deus quando) termos o menor metrô do mundo.

Um comentário:

maria guimarães sampaio disse...

Além de menor do mundo sem nem um pedaço debaixo da terra.