terça-feira, 29 de março de 2011

OH BETHÂNIA, PERDOE-NOS!

É revoltante o linchamento virtual absurdamente injusto do qual está sendo vítima a cantora Maria Bethânia na internet. Uma nota maldosa divulgou de maneira distorcida a aprovação, por parte do Ministério da Cultura, da possibilidade de captar recursos privados através da Lei Rouanet (que permite ao mecenas abater o investido no Imposto de Renda), de um projeto para a criação de um video-blog da qual a cantora participaria chamado "O Mundo Precisa de Poesia". E isso foi o suficiente para iniciar uma onda de protestos despropositados.
Criado a partir do convencimento de Bethânia pelo antropólogo Hermano Vianna, o blog realizaria e disporia gratuitamente 365 vídeos com poemas escolhidos pela cantora e por ela recitados. Milhares de internautas mal informados puseram-se a postar textos, notas e vídeos na internet com infâmias e ofensas desprovidas de qualquer verdade, justiça ou nexo. O apedrejamento mais errado que se possa imaginar. Aprovado em R$ 1,3 mil, o valor do projeto impressionou muita gente acostumada a ver a internet como um veículo de segunda classe, destinado à transmissão de conteúdo gratuito e feitura amadora.
Muitos repudiaram o cachê da cantora. Mas o valor econômico da arte é mensurado de um modo muito mais complexo do que imagina a mente de um linchador. O que está previsto é que Bethânia receba algo em torno de R$1.600 referentes a cada um dos 365 videos que gravaria. Quem trabalha no meio sabe o quão simbólico é um cachê nesse valor para um artista consagrado. Os vídeos poderiam ser vistos gratuitamente, baixados e até exibidos, 365 pedaços de arco-íris para embelezar cada um de nossos dias do ano, como frases bonitas no rodapé do calendário.
Poesia recitada é um afago ao cérebro e uma homenagem à lindeza da língua portuguesa. E ninguém no País recita melhor do que Bethânia. Aliás, talvez possa até ser dito, pouca gente no Brasil lançou mais compositores do que ela. Os clássicos também podem ser ouvidos através de sua voz. Procure no YouTube por Fernando Pessoa e já no segundo resultado aparecerá o nome de Bethânia. São trechos capturados em shows por fãs. O blog seria a possibilidade de termos toda essa beleza encapsulada pela lente talentosa de Andrucha Waddington e disposta para todos, e para sempre. Mas talvez não as tenhamos mais. Temo que Bethânia tenha já se assustado, arisca que é, com o linchamento virtual, praga moderna da qual foi vítima (logo ela?).
Os cegos quixotes, donos da verdade-equivocada, destroem sonhos e vidas. Estimulados por irresponsáveis como Lobão que, para variar, disse equívocos aviltantes. Nisso dá o analfabetismo político-científico. Que, misturado com autoconfiança intelectual, vira nitroglicerina. A lei é mais utilizada pelos estados onde há maior concentração de projetos requeridos e essa é uma das vantagens que ela tem. É usada para permitir a existência de obras como: CD e DVDs musicais de todos os gêneros, espetáculos teatrais, fanfarras do interior, turnês de artistas nacionais e até estrangeiros. Financia tanto filmes campeões de bilheteria como também outros mais restritos. Graças à Lei Rouanet temos um público crescente para o cinema nacional, por exemplo. O governo financiar cultura é tão importante quanto financiar ciência e educação. Sem ela o ser humano, além de não amadurecer, apodrece.
Há pontos questionáveis que podem e devem ser revistos. Mas "O Mundo Precisa de Poesia" não podia ser um exemplo de equívoco, porque se trata de um projeto deslumbrantemente lindo e generoso e que deveria ser usado justamente como exemplo das maravilhas que uma cultura, um artista e uma lei podem nos dar. Mas agora já não sabemos se Bethânia será capaz de se deixar filmar declamando outra vez. A motivação do verdadeiro artista é muito frágil (saibam!). Como disse o genial Jorge Furtado: "O governo deveria lhe mandar o financiamento com um buquê de flores e um cartão com pedido de desculpas". E finalizo com Hermano Vianna: "Agora vejo mais do que nunca o quanto o mundo precisa de poesia". Oh Bethânia, perdoe-nos.
Hugo Passos
Cineasta e Diretor de TV

Há dias venho lendo nos jornais, revistas e internet a respeito desse caso. Tinha me decidido a escrever sobre o assunto. No jornal A Tarde de domingo passado, lí o artigo de Caetano Veloso e resolví trancrevê-lo aqui por achá-lo muito melhor do que eu faria. Mas hoje, lendo esse artigo de Hugo Passos encontrei aquilo que eu gostaria de dizer e não conseguiria por não ter os detalhes necessários e a construção de texto e clareza aqui contidos.
Esse linchamento virtual é mais um resultado da ignorância e afoiteza próprias dos tolos e maus.
Que Brasil é esse?




7 comentários:

Chorik disse...

Só discordo em um ponto. A tendência da Lei Rouanet é que as empresas apoiem projetos de artistas já consagrados (marketing é marketing, o desconto do IR é parcial (+-35% do valor investido) e nenhuma empresa botaria 65% da verba em quem não vende) e ao governo caberia necessariamente encontrar formas de incentivar também o surgimento e a sustentação de projetos de artistas menos midiáticos e tão talentosos quanto. Quanto ao cachê de Bethânia, é muito, é pouco? Quanto vale a arte? Inútil tentar descobrir. Meu blog não vale nada, essa é minha única certeza.

Moniz Fiappo disse...

Chorik,
Entendo que essa Lei deve ser aperfeiçoada e muito. O problema é o linchamento virtual dessa artista que está dentro da lei.
Se voce tiver interesse dê uma olhada no link:
www.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2011/02/Resultado-CNIC-184%C2%AA.pdf

Bernardo Guimarães disse...

meudeusdocéu! há séculos artistas famosos e outros nem tantos, se utilizam dessa lei e nós nos saciamos das artes que eles fazem. quem não quer, fica em casa trancado, e se teclar contra, não ofenda! mas o que se deve perguntar é: por que Bethânia?
que pena que minha indignação não se transforme em textos, mas ainda bem que tem quem os faça.

Anga Mazle disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anga Mazle disse...

Eu pensei em escrever sobre este assunto. Não sobre questões éticas que se sobreporiam ao direito de a Bethania se utilizar da Lei Rouanet (para mim, indiscutível e ponto final), mas sobre o circo em que o caso se transformou. Acabei desistindo, porque só sei escrever com humor, e já havia palhaços demais no picadeiro...

Abraços

PS: Muito bonitos os seus trabalhos!

Anga Mazle disse...

Eu pensei em escrever sobre este assunto. Não sobre questões éticas que se sobreporiam ao direito de a Bethania se utilizar da Lei Rouanet (para mim, indiscutível e ponto final), mas sobre o circo em que o caso se transformou. Acabei desistindo, porque só sei escrever com humor, e já havia palhaços demais no picadeiro...

Abraços

PS: Muito bonitos os seus trabalhos!

Lucia Alfaya disse...

Este é o nosso país, para o bem e para o mal! Pena que quando é para o mal termina por atingir quem é do bem. Injusto? muito. Exceção? Não. O que fazer? Protestar, defender. Ainda bem que temos mentes pensantes e escreventes, quem sabe o eco dessas letras chegue aos ouvidos que interessam para que outros equívocos como esse sejam evitados no futuro.